O paradoxo da escolha (ou porque temos dificuldade em definir o sabor do sorvete)



3 novembro, 2020
Autoconhecimento

Lembre-se de uma das vezes em que foi a uma sorveteria, daquelas tipo self-service. Talvez você, ou alguém que estava com você, tenha vivido o que vem a seguir.

 

Você entra decidido a tomar um sorvete. Uma bola. De repente, pega o copinho e se dirige ao buffet. Pistache, amendoim, chocolate belga, ao leite, amargo, meio-amargo, com oreo, com gotas, com raspas… segue andando e encontra mais uns dez sabores veganos e outros quinze de frutas da estação. Mas não, não termina aí! Ainda tem a cobertura: morango, framboesa, caramelo, doce de leite, nutella… e algumas outras dezenas de guloseimas! Agora me diga: diante de tantas opções, o que você faz? Já aconteceu de ir embora (ou viu alguém saindo desse lugar paradisíaco) sem se servir de nada? Ou, ao contrário, colocar tanto sorvete no copinho que transbordou?

 

Outra situação que pode soar familiar (pelo menos para nós, mulheres). É sábado de manhã, e você vai ao salão de beleza (ou à sua esmalteria de costume).  Você só quer pintar as unhas. Até que se vê diante do mostruário e pronto: duzentas e quinze opções de esmalte. Olha o paradoxo da escolha aí de novo! Escolher uma cor é abrir mão das duzentas e quatorze outras. Está pronta pra isso?

 

O paradoxo da escolha é justamente a contradição entre a quantidade de possibilidades que temos à nossa disposição e a paralisia que nos pode acometer ao ter que escolher uma dentre toda essa variedade. São os dois efeitos opostos: a libertação versus a estagnação.

 

Barry Schwartz, psicólogo e professor americano, trouxe essa discussão à tona em seu livro O paradoxo da escolha: porque menos é mais. Em síntese, ele defende que a maioria de nós estaria melhor se tivesse menos opções, e que muitos de nós sofremos demais para fazer a escolha certa.

 

Com o trabalho não é diferente: hoje temos milhares de profissões catalogadas… Meu Deus… O que escolher??? Olha os efeitos contrários funcionando aí. De um lado, a libertação: não precisamos escolher só entre Direito, Medicina, Odonto, Engenharia, Design. Podemos fazer milhares de outras coisas. Ser o que quisermos ser. Por outro lado, quando eu escolho algo pra fazer, uma profissão para exercer, abro mão de fazer outra infinidade de coisas, porque gasto tempo e energia fazendo o que escolhi primeiro… E se o que eu deixei de fazer fosse melhor? E se eu fosse mais feliz fazendo outra coisa? E se…….

 

Viu como o paradoxo da escolha está em todo lugar? Da escolha do sorvete à definição da profissão.

 

E, para piorar, temos muitas influências externas que nos impedem de realmente olharmos para dentro e, com autenticidade e responsabilidade, buscarmos o que realmente queremos (sim, estou falando do sorvete, do esmalte e do trabalho).

 

Somos livres, mas será que sabemos exercer nossa liberdade? Ou ficamos presos no “e se…”?

 

Escolher algo pra fazer, alguém com quem estar, o lugar pra onde ir, significa renunciar a outra infinidade de coisas, pessoas e lugares. Você está disposto a isso?

 

Por mais que encontremos ferramentas inteligentes e pessoas que nos ajudem a eliminar boa parte das tantas possibilidades que temos, o paradoxo da escolha sempre estará entre nós. Faz parte do mundo moderno.

 

Apesar dele, precisamos seguir adiante. Penso que viramos gente quando passamos a nos comprometer com as nossas decisões. E com as pessoas que estão à nossa frente. Viramos gente quando atribuímos significado às nossas palavras. É aí que a vida acontece. E não em cima de um muro qualquer.

 

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LUCIANA GALLO

Luciana Gallo é co-fundadora da Amadoria, facilitadora de processos colaborativos, de desenvolvimento pessoal, e de mudança organizacional. Mentora e palestrante, ajuda as pessoas a (re)significarem suas vidas e trabalhos. Atua na expansão do conhecimento e da consciência da pessoa e do profissional dentro das organizações e das comunidades.

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