A (DESAFIADORA) ARTE DA EMPATIA



30 março, 2020
Amor

Pra mim sempre foi difícil entender esse lance de empatia.

Deixe-me corrigir: entender eu até entendia. O conceito é bem simples, aliás. Se você buscar no google ou em um dicionário qualquer – sim, sou da época de dicionários – vai encontrar mais ou menos assim: “empatia é a capacidade de você se colocar no lugar do outro e sentir o que esse outro sente”. E como sou uma pessoa que, já há algum tempo, sabe interpretar as palavras e compreender o significado delas, racionalmente entendi.

O difícil mesmo era expressar essa tal empatia, demonstrá-la para esse tal outro que estava na minha frente. Como toda boa humana que sou, queria que, junto com o conceito, viesse o “como”, a fórmula. Como encontrar palavras, ter atitudes, mostrar para o outro que estava efetivamente sendo empática. Esse era o desafio!

Achei que estudando, descobriria esse mapa do caminho.

Só que, quanto mais eu lia e me debruçava sobre esse assunto, mais ia percebendo que não tinha fórmula. Já devia ter desconfiado disso. Hoje – estudando já há algum tempo o ser humano, seus comportamentos, medos e crenças – sei que não existe forma. E isso acontece porque a empatia, como toda habilidade emocional-relacional, não aceita receita de bolo.

Mas descobri algo que me fez desvendar parte do mistério. Descobri que empatia, antes de ser expressada, precisa ser sentida. Verdadeiramente sentida. E isso, por si só, já é um baita desafio.

Então o lance é o seguinte: você entende racionalmente o conceito, sente verdadeiramente, e daí, expressa. Parece simples? Não se anime antes de terminar a leitura.

A pesquisadora Theresa Weiseman, estudante de enfermagem, realizou um estudo sobre profissões empáticas e chegou a quatro elementos da empatia.

Segundo ela, o primeiro elemento é a tomada de perspectiva.  Ou seja, reconhecer o lugar de onde o outro fala como um lugar legítimo. Entender seus pressupostos, seus porquês. Saber que ele é resultado de tudo o que lhe aconteceu até aquele momento, de todas as suas experiências.

Depois disso, a ausência de julgamento. Que está bem conectada com o primeiro elemento. Eu reconheço como válida a experiência de alguém, e não julgo. Nem na minha fala, nem no meu pensamento. Em uma sociedade em que aprendemos a rotular pessoas e situações desde muito cedo, não julgar é praticamente uma mudança de hábito. Colocamos rótulos em pessoas com a mesma facilidade que as indústrias colocam nos alimentos.

Três. Reconhecer qual é a emoção da outra pessoa. O que ela está sentindo. Também parece fácil, mas não é. E o problema é o seguinte: a maioria de nós não tem repertório para identificar o que estamos sentindo. Porque não aprendemos isso na escola. Não na maior parte delas.

Aprendemos português, matemática, história e geografia, mas não nos ensinam a nomear os nossos sentimentos. Pelo contrário, somos educados a não sentir. “Não chore”. “Não fique triste… venha cá que vou distrair você com alguma outra coisa”. E, de distração em distração, vamos seguindo, até chegarmos na vida adulta com os sentimentos entalados na garganta, sem saber bem o que é o quê.

Pense em você, por exemplo. Quando lhe perguntam “como você está” o que você responde? Estou bem. Bem. Simplesmente “bem”. Se tiver muita intimidade com seu locutor, e coragem – coragem para reconhecer-se mal em um mundo que venera o estar bem e feliz a qualquer custo e postar isso nas redes sociais – pode soltar um estou mal”.

Tudo bem se seu repertório é maior do que esse. Mas não é assim com a maioria.

Há um tempo atrás me fiz um desafio: responder a pergunta “como você está” com um sentimento diferente a cada dia. Identificá-lo antes de falar. Confesso que foi bem difícil.

Mas como há sempre coisas boas acontecendo nesse mundo, para esse assunto não seria diferente. Em uma escolha infantil em New Haven, EUA, existem aulas específicas de educação emocional. Os professores sentam em círculo e perguntam aos pequenos o que estão sentindo naquele momento, e porquê.

E sei que existem aqui também lindas escolas que trazem a inteligência emocional para as crianças. Mas ainda são inacessíveis à grande maioria das crianças.

Por fim, voltemos a Theresa. Ela traz o último elemento da empatia: comunicar-se com o outro. Isso depois de entender e sentir.

E essa comunicação não precisa ser, necessariamente, verbal. Pode ser, até mesmo, o silêncio. Taí uma coisa mais difícil do que identificar emoções e sentimentos. Permanecer em silêncio, ao lado de alguém. Por segundos que seja. Seguramos o fôlego mais do que isso. Mas não seguramos a fala.

Quanto tempo você aguenta ficar em silêncio? Já testou?

Olha como funciona a coisa: por não suportarmos a ausência das palavras, nos comunicamos com o que nos vem à cabeça. Automaticamente. E nosso automático não sabe muito ser empático. Também não aprendeu.

O mais comum que acontece quando alguém nos conta algo difícil, uma dor, é competir com a pessoa que está diante de você. Quem nunca?

Um: “Estou com dor de cabeça”. O outro: “Estou com todo o corpo doendo.”

Um: “Minha mãe está doente”. O outro: “Pelo menos você ainda tem mãe, a minha morreu, e meu pai também, de câncer”.

Parece caricato, mas não é.

Mas não é só nessa competição de desgraça que costumamos entrar quando o que o outro só precisava era de um abraço. De um “estou com você nessa”.

Acontece também o: “eu te avisei…”, “você precisa aprender a…”, “se eu fosse você eu…”

Você pode até dizer isso – e em alguns momentos podemos dizer – mas precisa saber que, nesse momento, o seu nível de empatia é igual a zero. Consolar e encerrar o assunto também não é ser empático.

A essa altura, talvez você esteja se perguntando: “então como fazer pra ter empatia?”

Bem, voltamos ao início. Não há fórmula exata. Mas seguir os quatro elementos pode ajudá-lo, e muito.

Sempre quando estou atendendo clientes ou facilitando alguma experiência de aprendizagem, e alguém me diz “ah, mas não sei ser assim”, digo que habilidades emocionais – qualquer uma delas – são aprendidas. Mas, para isso, precisam ser praticadas. É preciso atitude.

Então convido você a começar a praticar. E, assim como um nadador de 200 metros começa nadando 30, comece aos poucos. Se observando. Percebendo em quais momentos você precisa exercer a empatia. Quais são seus desafios ao praticá-la. Vá treinando. E, antes que você perceba, estará nadando os 200.

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Luciana Gallo é co-fundadora da Amadoria, facilitadora de processos colaborativos, de desenvolvimento pessoal, e de mudança organizacional. Mentora e palestrante, ajuda as pessoas a (re)significarem suas vidas e trabalhos. Atua na expansão do conhecimento e da consciência da pessoa e do profissional dentro das organizações.

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